quarta-feira, 18 de abril de 2007

What is beauty?


A luz de Barcelona num dia feio, fotografia minha

What is beauty? Is it a measurable fact (Gottfried Leibniz), or merely an opinion (David Hume), or is it a little of each, colored by the immediate state of mind of the observer (Immanuel Kant)?

Gene Weingarten


O que vos vou mostrar agora, que não sei se já foi falado nas notícias em Portugal, é algo de, no mínimo, assombroso. Não tenho presente como é o metro em Lisboa hoje em dia, mas suponho que não haja muitos músicos, como há em Barcelona, a fazer da vida na rua parte do seu ganha-pão, tocando para um palco cujas dimensões se encontram delimitadas pela fronteira criada pelo som que o seu instrumento produz, visitado por multidões passageiras que raramente se interessam pelo que estão a ouvir.

Pois bem, e se em vez de um John Doe com uma guitarra, artista preso das opções apaixonadas tomadas na juventude, seduzido pelo ócio, traído pela vida, estivesse um músico consagrado, um dos melhores violinistas do mundo, com um violino avaliado em 3,5 milhões de euros, um Stradivarius, a tocar obras épicas de compositores como Bach ou Schubert? De certeza que as pessoas, mesmo as que não conhecessem música clássica, abdicariam de 5 minutos que fosse do seu tempo, formando-se uma multidão, rendida às qualidades do artista de rua. Ou não?

O Washington Post resolveu fazer a experiência, pondo Joshua Bell, um dos melhores violinistas da actualidade, com o seu Stradivarius de 3,5 milhões USD, numa paragem de metro de Washington, durante a hora de ponta matinal. O resultado? Das 1097 que passaram nesses 40 minutos, apenas 7 pararam para assistir -por alguns minutos- ao concerto, 27 deram dinheiro, e somente uma pessoa reconheceu o artista como sendo Joshua Bell, pese embora o músico se encontrar com um boné, jeans e t-shirt. E quanto é que facturou? 32 dolares e uns trocos (20 deles foram deixados pela única pessoa que percebeu a sorte que teve em presenciar aquele momento).

A notícia, com vídeos, está aqui. É algo longa, mas percam 15 minutos a lê-la e a ver os vídeos.

Será a beleza, a arte, relativa? Precisará de estar enquadrada num contexto próprio para que se dê conta dela, ou será que estamos tão enfiados na nossa rotina, no nosso quotidiano cinzento, que vamos deixando de lhe dar importância, vamos perdendo a capacidade de a ver? Ou, por outro lado, talvez vivamos num mundo em que as aparências nos viciam as opiniões, os gostos, e a mera improbabilidade de encontrar um músico genial no metro leva-nos a ignorá-lo, ou, pelo menos, a desconsiderá-lo a priori?Teria de estar com um fato impecável, num Teatro ainda mais impecável, em que as pessoas soubessem ao que iam, para que se pudesse constatar que realmente era fora-de-série?

Já agora, diz o artigo que "He's single and straight". Com esta cara de florzinha, a tocar violino, é roto de certeza. A única coisa relativa, neste caso, é se gosta muito ou pouco de levar no pacote.

4 comentários:

Mariana disse...

Triste realidade, mas cómoda! O que é facto é que já estamos preparados para que as coisas aconteçam dentro da normalidade e dos padrões habituais! Não que isso seja egoismo, mas porque também já está preconcebido que não assistiremos a um espetaculo de um nível elevado, como ouvir Joshua Bell, gratuitamente. Se assim o fosse porque estoirar toda uma mesada na gulbenkian, lol! As pessoas não tem é a percepção que sair dos padrões é enriquecer, é poder exprimentar, é sair da caixa! A disponibilidade não se relaciona apenas com tempo, mas com alma, com espirito. Podemos estar limitados, obviamente, pelo tempo, por um exame a que não podemos faltar, por uma reunião,enfim, toda uma panóplia, mas podemos pôr os sentidos a funcionar de maneira apurada, para ouvir, sentir, cheirar e captar talvez aquela imagem, ou aquele som, que levamos no fim do dia para casa e guardamos na memória! isso chega muitas vezes para marcar um dia que é diferente do outro! Não temos todos que ter a mesma sensibilidade, mas não podemos desgostar de algo que não experimentamos! O objectivo da experiencia não seria, suponho eu, que Joshua angariasse dinheiro, mas sim ,que fizesse chegar a beleza da sua vocação, do que mais gosta de fazer, aos outros!

Já agora, vejam isto que é demais...é esquisito mas se virem com atenção é muito engraçado!
http://video.google.com/videoplay?docid=-8927097978441589893&hl=es

ze maria disse...

O objectivo da experiência era perceber se algo de sublime se conseguia fazer notar num cenário atípico (mais do que atípico, num cenário averso a manifestações de beleza).

e a conclusão a que se chegou foi que não. o problema foi que os resultados foram tão surpreendentemente negativos que se levantaram muitas outras questões, abordadas de forma genial na notícia em questão.

não csg ver o vídeo...um grande bj

Mariana disse...

pode não parecer, mas eu li a noticia! Desta vez não me consegui fazer entender tao bem...depois explico! Baci

Francisco disse...

Admito estar a tornar-me um leitor diario do teu blog, a verdade é q tenho achado graça ao facto de muitos dos temas q abordas aqui, sao constantes nas nossas conversas, ja q sou um dos q divide contigo a experiencia de viver em barcelona...
Ja te tinha prometido um comment e aqui vai ...
A verdade é q cada vez mais acho q as pessoas vivem o dia a dia cada vez mais de pressa e em constante stress sem sequer se aperceberam do que se passa a volta delas. Acho q a musica como todas as artes é sentida de diferentes maneiras de pessoa para pessoa consuante a abertura q cada um tem para as diferentes artes... Cada vez menos há abertura, interesse ou mesmo tempo para sentir e reflexionar sobre cultura, mas os que o fazem pagam 32 dolares e ganham mto mais...
Quase todos os dias paro no metro de barcelona durante alguns minutos para ouvir um saxofone ou mesmo uma guitarra... Vale a pena