quinta-feira, 12 de julho de 2007

La Marca


ou o post sobre barbeiros, e não só, para quem não tem headphones

Há coisas que não se escolhem. Vêm para ficar, qual cicatriz, se de ferida se tratar. Como o nosso barbeiro. O barbeiro? Ias puxar para o coração e falas-me de barbeiros? Já vais ver. Tá bem. Há poucos dogmas, na vida de um homem, como o que estabelece "não mudarás de barbeiro". Da água, daquela água, podes beber, mas de barbeiro não mudas que te fodes. Os nossos pais não devem ter tido noção das consequências que tem a escolha de um barbeiro. Eu, se fosse meu pai, faria um levantamento de todos os barbeiros de Lisboa, com visitas in loco para averiguar Da Lavagem, Do Corte, e Da Conversa de Barbeiro, sobretudo o último, com especial enfoque na CEPFPPT, Capacidade de Enunciar Problemas do Futebol Português Por Tesourada. Catchy, a sigla, não é? Mais fácil que IPPAR e EPUL, seguro. Ssépefepete. A primeira tesourada que ceifa o nosso couro cabeludo é a caneta do barbeiro, assinatura dum contrato vitalício que nos une a ele num vínculo insolúvel. Clac, clac. Por acaso não sei se as tesouras fazem clac, mas o txec, primeiro som que me veio à cabeça, precisava de sofrer um processo de masculinização. Lembrei-me disto no outro dia. Vou-vos contar um segredo, lembrei-me porque dei por mim a ponderar experimentar um barbeiro diferente em Lisboa, pensamento esse, que após 7 pares de chapadas auto-infrigidas, se esvaneceu envergonhado da sua ousadia. Merdas do gajo, vem de Erasmus com aquela atitude toda do "abre os horizontes, varia de sítios", e tem logo a mania que é campeão e pode perpetrar traições desta índole. Vai-se a ver e queria ir a um cabeleireiro. Isto devia dar para italizar o itálico, género parêntesis rectos da formatação de letra. Mas isso agora não interessa nada. Por falar nesta frase, já viram a Teresa Guilherme naquela telenovela nova da SIC (que tem um gajo que mais parece o Zorro de Albufeira)? É que é impossível vê-la na televisão sem estar constantemente à espera que ela pergunte ao Telmo se o forte da Célia tem ou não crocodilos à volta. Não se troca de barbeiro, não sei porquê mas não se troca. A regra do indicativo telefónico aplica-se a título excepcional, no caso de manifesta impossibilidade de se deslocar à terra natal para ficar com aquela cara de parvo que quem acaba de cortar o cabelo sabe fazer melhor que ninguém. Fiquei traumatizado das vezes que o Paulo, meu barbeiro, não me cortou o cabelo, talvez por sentir a ausência daqueles "hum hum"s que aquecem as minhas dissertações futebolísticas, que as fazem sentir ouvidas, mas que no fundo não passa dum "hum hum" que já está ouvir a mesma história pela 5ª vez nesse dia -corto o cabelo à tarde- representando, no entanto, o papel do "hum hum" interessado na perfeição, tipo puta das interjeições. O barbeiro não se questiona, nem sequer se procura saber se há alguém melhor ou mesmo se o que temos é mau. Há o amor eterno, e logo a seguir vem a relação que um homem estabelece com o seu barbeiro. Até que a morte nos separe. É que há coisas assim, sem que nos apercebamos disso, que nos marcam. Mas só é ferida caso se queira. Agora que penso nisso, o meu barbeiro tem um bocado o cabelo à foda-se, e eu corto lá. Mas tu tens carapinha, não faz diferença. Parvoíce, estes caracóis precisam de atenção especializada. Hoje comi caracóis na praia, bem bons os gajos. Gosto especialmente de olhá-los olhos nos olhos antes de os comer, enquanto lhes faço uma festinha, com o indicador, nas antenas. Esses gajos é que têm sorte, não precisam de cortar o cabelo. Não houve um dia. Talvez tenha havido, mas só porque a ressaca conseguia ser bastante ciumenta.

2 comentários:

U_bien disse...

É pah esqueceste da qualidade dos bancos dos barbeiros, dispenso a conversa futebolística mas aquele banco ai ai ai ....

Ah e a outra coisa, o risco de experimentar outro barbeiro é mutio grande. Não arrisco a minha vida em qualquer estaminé com umas cadeiras giratórios e os sujeitos duvidosos la dentro....

funny nonetheless.....

Anónimo disse...

MUITO BOM !!