segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Meio Golo de Palavra



Estimado Pablo,

Trato-te por tu, por saber que assim manda o costume na latina pampa húmida que teve o prazer de te ver nascer para o futebol e para a vida. Confesso-te, porém, que mais gostaria de tratar-te por Usted, assim, com maiúscula e tudo hombre, ou melhor, Hombre.

Como deves calcular, bem e para não variar, a julgar pela precisão pornográfica dos teus passes, rectius (perdoa-me o tique de jurista, vã tentativa de dar mais brilho à coisa), meios golos, dizia eu, como deves calcular, por esta altura exponho o motivo que me leva a escrever-te - pois bem, escrevo-te, em primeiro lugar, para te avisar para teres cuidado, e também para te agradecer.

Estranhas certamente o intróito da exposição de motivos, sobretudo se já reparaste no vídeo que vem acima, mas não te sobressaltes, que eles estão relacionados.

Tens de ter cuidado Pablo. Certamente que na Argentina e talvez também em Espanha, as gentes estão habituadas a obras de arte como a que fizeste ontem, mas por terras lusas, os passes de letra não podem ser feitos de um meio-campo para o outro. Ainda para mais, com a crise que atravessamos, o desconhecido, ainda que genial, atormenta muitas mentes, deixa-as confusas e baralhadas, já para não dizer inseguras e frustradas, perante tamanha demonstração de qualidade, apenas ao alcance de predestinados como tu.

Passes de letra, de um meio campo para o outro e que ainda por cima dão golo? Já se viram motins causados por menos. Bem sei que não tens culpa de ter o Suazo na equipa, mas olha que o que fizeste ontem, nesta terra onde os brandos costumes convivem - como seria de esperar, tal é a brandura -indiferentemente com a mesquinhez, dá direito a uns quantos olhares de esguelha e a três ou quatro boatos infundados sobre a tua vida pessoal.

Verdade seja escrita, o que tu tiveste o desplante de fazer ontem em pleno Dom Afonso Henriques não foi um passe de letra. Passes de letra têm um limite de 5, vá, 6 metros. A partir dessa distância, a pouca gente conhecedora da existência do que tu fizeste ontem é unânime em afirmar que não se trata de um passe de letra.

E o que será, então, perguntas-te, e a mim, indignado? Caro Pablo, o que tu fizeste ontem foi um passe de Palavra, que a ínfima parte do teu Génio posto ontem naquele passe, é grande demais para caber numa simples letra, merece o epíteto de Palavra. E de passe também tem pouco, parece-me mais correcto apelidá-lo de meio golo, se achares bem, claro. Meio Golo de Palavra, portanto. Ou Palavra de Meio Golo. Visto o vídeo, julgo ir dar ao mesmo.

E é por essa razão que te agradeço. Gracias Pablito, por me teres mostrado o que é um Meio Golo de Palavra, e por me teres feito ver que (o teu) Génio é demasiado extenso para caber numa simples letra.

Espero que tenhas um óptimo dia de anos - fazes anos hoje, até aqui conseguiste surpreender-me. Vê lá se percebes que não és tu que nos dás presentes, mas o contrário.

É verdade, também te queria dizer isto: se fores hacia Las Brasitas, pede o petit gateaux - não tem nada de argentino, mas talvez fiques a perceber os sentimentos que provocas nas pessoas - messi incluído - quando resolves acarinhar o esférico como si fuera tu hijo.

Un cordial saludo,
Rosé Mari Júdice

domingo, 2 de novembro de 2008

Ah, grand'azar



16:30 - Porreiro, daqui a meia hora começa, se bem que não percebo por que é que estou a ver isto. Só por um milagre é que o Hamilton não acaba em 5º, mas pronto, é domingo, não há bola, a ressaca não permite grandes leituras, tolera-se.

16:45 - Chuva? Se calhar isto ainda vai ter alguma graça...

17:20 - Hamilton em 6º? É uma questão de tempo.

17:40 - Hamilton em 5º. Pronto, acabou-se a papa doce, como me diziam quando era miúdo. Não percebo o que é que leva alguém a ver uma corrida do princípio ao fim. Só estou a ver isto porque estou de ressaca. Não admira que a F1 esteja em crise. Impropério impropério impropério. Já passavam era mais imagens do paddock da McLaren.

18:20 - Hamilton em 4º. B-O-R-I-N-G.

18:30 - Hamilton em 5º. Boring nonetheless. Mas este Vettel, apesar de ter nome de marca de skis, sim senhor.

18:35 - Imagens do paddock da McLaren. "Grande pacote. Mas quem é que disse pacote Mariana? Paddock, paddock."

18:45 - Hamilton em 6º. Um formigueiro começa a percorrer-me o corpo, os olhos arregalam-se ligeiramente em direcção à televisão e um valente "Tu queres ver?" forma-se na Suiça da minha cabeça, neutral em relação à Battle for Middle Earth que decorria em simultâneo no interior da mesma, com ligeira vantagem para os ogres e respectivos cacetes.

18:51 - Última volta. Pareço que estou a ver o Bayern - Manchester da final da Champions de há uns anos atrás, tal é a euforia. Massa acaba em 1º, não acredito, vai ser campeão, o Vettel não desarma, e não pode haver nenhuma daquelas intrujices típicas, de pés de companheiros de equipa súbita e momentaneamente avessos ao acelerador. Adoro a Formula 1, que espectáculo de desporto!

18:52 - Ferrari festeja em peso, Massa é campeão do mundo, Interlagos está ao rubro. Aquela Nicole Scherzinger é mesmo otária, está a festejar porquê? Hamilton em 5º? Como é que é possível, se o Vettel acabou à frente dele? Deve ter havido algum erro informático, só pode. O quê, aquele gajo com nome de pistola foi ultrapassado na última volta? "Tu queres ver?, faz favor de sair que o ah, grand'azar, quer entrar".

A probabilidade de futuras sinergias entre a Ferrari e o Sporting aumentaram exponencialmente. Aproveitem, ragazzi.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Villeneuve vs Arnoux



Coisas que se aprendem com os mais velhos.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Cuestión

Por acaso os vossos livros do García Marquéz também costumam vir com banda sonora, cheiro a um calor húmido e a árvores de fruto tropicais?

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Hop in

I hate to jump on the bandwagon, mas tem de ser: nos dias que correm, Contemporâneos > Gato Fedorento. Pronto, já está.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

The Great Fitzgerald

'Nevertheless you did throw me over,' said Jordan suddenly. 'You threw me over on the telephone. I don't give a damn about you now, but it was a new experience for me, and I felt a little dizzy for a while.'

We shook hands.

'Oh, and do you remember' - she added - 'a conversation we had once about driving a car?'

'Why - not exactly.'

'You said a bad driver was only safe until she met another bad driver? Well, I met another bad driver, didn't I? I mean it was careless of me to make such a wrong guess. I thought you were rather an honest, straightforward person. I thought it was your secret pride.

'I'm thirty,' I said. 'I'm five years too old to lie to myself and call it honour'.


The Great Gatsby

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Indisputable truth no. 2

The thing with adopting a cool passerby's indiference is that you almost never get to know if it actually payed off. One should be allowed to walk around in the street with a sign saying "Please tell me if you notice how cool I look not giving a crap about anything around me". Yeah, that'd be cool.

Guess I've just created a t-shirt.

Indisputable truth no. 1

Approval is all about perception. Perception of one's approval layer, of the depth of knowledge needed to be shown in order to obtain that indistinguishable face that basically means «OK, I see you're worth my time, here's your free "you're allowed to say anything you want that I will trust you" card».

Failure to recognize this small - yet crucial - detail may end up in some serious fucked up something that I cannot still quite define right now. But it will cause you problems all right.

domingo, 12 de outubro de 2008

Life in two sentences

Até aos 30 anos tens a cara que Deus te deu. Depois, terás a cara que mereces.

Miguel Gomes


Pela primeira vez uma frase deixa-me com vontade de ir ver um filme. Ou melhor, dois. A Cara que Mereces e Aquele Querido Mês de Agosto.

Word on the street has it

Coldplay is the new fucking black.

sábado, 11 de outubro de 2008

Guess this is rock bottom

Acabei de "justificar" um post do meu blog. Por achar que o texto não estava bem formatado. Um texto do MEU blog. Não o texto um documento para um cliente, ou de uma tradução, ou de outra coisa qualquer remotamente séria e oficial. Do MEU blog.

Aposto que se desse para activar as track changes, era ver-me todo maluco a salpicar os posts de tracejados, balões e afins.

Desculpa, meu querido. Nunca mais te justifico.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

On the verge of giving up

Estou disposto a ceder a parte de mim que conserva alguma cor e uma moderadíssima graça. Preço negociável, mas barato, que a crise toca a todos. Fervilha de ideias, ao que consta, mas sente-se numa daquelas cenas de filme de série b em que as paredes da sala se comprimem inevitavelmente com o passar do tempo.

E alguém tem de carregar no botão. Alguém esse que certamente não serei eu, porque a parte colorida está dentro da sala, e a cinzenta just doesn't care.

E se pusesses o botão dentro da sala?
Afinal ainda respiras.

Mas despacha-te.
Calma, vou só verificar qual a legislação aplicável e já agora também a posição da doutrina e jurisprudência sobre botões em salas exíguas com paredes amovíveis.

Salas exíguas com parede amovíveis? É melhor ligar também para a Câmara, a ver o que é que eles dizem sobre isso.

E já agora faz uma tradução disso tudo para inglês. Não te esqueças também de ver o código anotado dos botões em salas exíguas com paredes amovíveis.

Então, a parte colorida sempre pode pôr o botão dentro da sala? Acho que saiu agora uma Directiva sobre isso. E dizia o quê? Que os cidadãos dos Estados-membros podem instalar os botões que quiserem dentro de uma sala exígua com paredes amovíveis, desde que a mesma tenha sido construída de acordo com as normas comunitárias aplicáveis à construção de salas exíguas com paredes amovíveis, e que o responsável pelo fabrico e instalação do botão não se chame "parte colorida", porque isso é nome de paneleiro, e toda a gente sabe que na construção civil não há paneleiros, há um acórdão sobre isso e tudo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Backstage access

A culpa da crise financeira é do sistema capitalista?da facilidade no acesso ao crédito à habitação que se verificou nos últimos anos?da falta de regulação ao nível da criação de instrumentos financeiros?

A mim não me atiram areia para os olhos, isto não é mais do que o lobby das editoras de manuais de História, num conluio de proporções globais, a fazer das suas.

And don't get me started on 9/11.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Porreiro pah

"O que é que fizeste hoje desde as 9:30 da manhã?"

"Comi um croquete, bom por sinal, um folhado de salsicha, uma sanduíche mista e um twix."

"Porreiro pah."

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Para memória futura: Da resistência à metamorfose

Worry not, apesar de estar num processo de quase inevitável acinzentamento da minha personalidade, que passa pela leitura, todos os dias, de três jornais que não os desportivos, e da vivência, entre 10 a 12 horas diárias, num pequeno mundo composto por um desktop, uma janela com vista para nada e um guindaste, com a companhia de uma fastidiosa parede branca, salvo apenas por intermitentes viagens auditivas - e aqui gostava de agradecer pessoalmente ao imeem e ao myspace, aproveitando a ocasião para fungar de forma ostensiva devido ao ar condicionado que impregna este microcosmos onde me encontro -, dizia eu, que apesar de estar já em curso esse quasi inevitável (olha o latim e o itálico já a aparecerem) processo de chatismo, prometo que este blog continuará a ser um verdadeiro bastião da palhaçada, autêntico ex libris do pateta que fui, sou, e para sempre, espero, serei.

Comprometo-me, inclusivamente, se bem que não preciso de estar aqui a prometer nada, que se me apetecer transformo este blog num espaço de profunda reflexão socio-política, a nunca levar-me a sério; mais, garanto que se tal acontecimento se verificar, não se tratará de um acto voluntário, sino que um espasmo da pessoa extremamente maçadora que quase inevitavelmente virei a ser.